Reflexões sobre o feminismo III

Este é o terceiro artigo que reproduzimos, escritos com inspiração no Dia Internacional da Mulher, e que trazem subsídios para um debate sobre feminismo hoje (os outros estão nas duas matérias abaixo).

Desta vez quem escreve é a jornalista Laura Capriglione, da Folha de S. Paulo. Seu artigo foi publicado hoje (8/03) no Especial/ MULHER. Vale à pena conferir.

Sociedade desigual, direitos diferentes

A indústria da moda e da beleza é o novo alvo das feministas brasileiras, na esteira da mudança que começou no início dos anos 1990 nos Estados Unidos

LAURA CAPRIGLIONE
DA REPORTAGEM LOCAL

Um “mea-culpa” percorre o feminismo brasileiro. A modelo Ana Carolina Reston Macan morreu de anorexia aos 21 anos. Tinha 40 quilos espalhados por 1,72m, magérrima como exige a indústria da moda, mas não se ouviu a voz das militantes feministas sobre o assunto. Vai-se ouvir.

Depois de passar anos batendo na tecla da descriminalização do aborto, da violência contra a mulher e da dupla jornada de trabalho, as feministas brasileiras estão diante de um novo desafio: rejuvenescer ou perecer.

A maioria já cinqüentenárias, elas tomaram as ruas do Rio de Janeiro e de São Paulo nos anos 1970 para exigir, com a frase de ordem “Quem ama não mata”, a condenação de assassinos de mulheres.

Trinta anos depois de ter disparado cinco tiros contra o rosto da namorada, a socialite Ângela Diniz, é do assassino e ex-playboy Doca Street que vem o maior elogio: “As feministas fizeram um bom trabalho”, disse, referindo-se à pena de cadeia que teve de cumprir por três anos em regime fechado depois de ampla campanha feminista por sua condenação.

No primeiro julgamento a que foi submetido, em 1979, o mesmo Doca tinha saído livre, sob aplausos, do tribunal.

Foi uma virada histórica. Até então, bastava invocar o argumento da “traição” para o indivíduo cavar uma absolvição (ou pena leve), baseada na idéia de que tinha legitimamente defendido a própria honra.

De lá para cá, as feministas se estruturaram em cerca de mil organizações não-governamentais, escalaram postos na máquina estatal, como os conselhos da condição da mulher e a Secretaria Especial de Políticas para a Mulher (no âmbito federal), obrigaram a construção de centenas de delegacias especializadas em crimes de tipo sexista por todo o país.

Mas as meninas passam ao largo de suas idéias. “O feminismo está envelhecendo. Precisamos, sem negar as lutas históricas, atualizar a pauta do movimento”, diz a professora Céli Pinto, diretora do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

A indústria da moda e da beleza é o novo alvo. Nem é tão novo assim, diga-se. Foi no início dos anos 1990 que, nos Estados Unidos, surgiu o livro “O Mito da Beleza”, da escritora Naomi Wolf, um libelo contra a exploração da mulher pela chamada “indústria do glamour”.
A onda desceu para o sul do Equador há pouco, mas já tem muito sobre o que falar. Na semana passada, relatório divulgado pela Jife (Junta Internacional de Fiscalização de Entorpecentes) acusou: o Brasil é recordista mundial em consumo de remédios para emagrecer. Drogas derivadas das anfetaminas, que podem causar dependência, psicose, problemas cardíacos e até matar, são engolidas em quantidades três vezes maiores do que as observadas nos Estados Unidos, onde o consumo também é alarmante.

Estudo patrocinado pela gigante Unilever, feito em dez países (entre eles Estados Unidos, Grã-Bretanha e França), revela: o Brasil é onde as mulheres estão mais desconfortáveis com a própria aparência.

“Só com cosméticos e perfumaria, as brasileiras gastaram R$ 17 bilhões em 2003″, cita Jacira Vieira de Melo, feminista e diretora do Instituto Patrícia Galvão. Tudo para conquistar o padrão “magra-branca-loira-jovem-cabelos-milimetricamente-alisados-sexy”, vendido pela indústria e que leva multidões a academias, clínicas de estética, salas de cirurgia e consultórios médicos.

“Direito de dispor do próprio corpo”, como defendiam as feministas pró-aborto? Maria Betânia Ávila, feminista do SOS Corpo, de Recife, acha que não. “Todas essas intervenções sobre o corpo da mulher são para agradar a um suposto “gosto” ou “desejo” masculino”, diz. “É a face mais visível da dominação masculina sobre o corpo da mulher”, reforça Jacira Melo.

Dupla jornada

O aborto ainda não foi legalizado no Brasil, as mulheres ainda ganham menos para exercer as mesmas funções (nesta semana saiu uma pesquisa do Ibmec São Paulo mostrando que a diferença salarial monta a 37% para profissionais com pós-graduação) e continua existindo o que as feministas chamam de “dupla jornada de trabalho” (estudo da Fundação Perseu Abramo, em 2001, revelou que 91% das mulheres em relação marital dizem ser elas as principais responsáveis pelo trabalho doméstico).

Balanço como este pode sugerir que o feminismo limitou-se a ser a caricatura “histérica” (lembre-se de que a palavra é oriunda da designação grega para útero), representada por mulheres “feias” queimando sutiãs em praça pública, como chegou a acontecer de fato nos Estados Unidos.

“Desde a luta das operárias pela redução da jornada de trabalho, ainda no século 19, passando pelo pioneirismo da brasileira Berta Lutz e das “sufragettes” da Europa e Estados Unidos, que exigiam o direito de votar, chegando, em 2006, à Lei Maria da Penha, que aumenta o rigor punitivo contra espancadores de mulheres, e à recente aprovação em plebiscito do direito ao aborto em Portugal, o feminismo mudou para sempre a relação homem-mulher”, diz Céli Pinto.

“A questão é que o movimento atua em uma sociedade desigual, que atualiza sempre as formas de exercício da desigualdade”, diz a feminista Maria Betânia Ávila. Se as mulheres conquistaram o direito ao trabalho, que se pague menos a elas. Se atingiram o direito ao prazer, que se exija delas um padrão inatingível de corpo, para fabricar a frustração. Se querem deixar de ser objeto dos maridos, que assumam sozinhas a responsabilidade pela educação dos filhos. Por isso, a luta continua.

Por Laura Capriglione, no jornal Folha de S. Paulo/ Especial Mulher, em 8 de março de 2007



Publicado em March 8th, 2007

6 comentários em " Reflexões sobre o feminismo III "

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Patrícia disse,
9-5-2007 - 19:25:46 - 200.196.125.9    

Acho que o tempo passa, o foco de alguns problemas muda, mas as mulheres continuam em desvantagem. Sinto que as mulheres jovens têm sido engolidas por uma lógica machista sem nem se dar conta disso. Estou buscando material pra puxar uma discussão no meu trabalho, onde aconteceu um fato no mínimo escandaloso: uma leva de homens recebeu promoção: NENHUMA MULHER recebeu a mesma promoção… estamos perplexas.

carolina lopes de oliveira disse,
10-23-2007 - 06:56:40 - 201.35.176.109    

Eu tenho 14 anos, amo jogar futebol, mas na minha escola ninguém permite pois dizem q só os meninos podem e as meninas tem q joga volei! ninguém merece!

Mulheres de Olho disse,
10-23-2007 - 08:17:53 - 189.24.123.29    

Ninguém merece mesmo Carolina,
antigamente era menos aceito, mas agora! que temos a melhor jogadora do mundo, e um time nacional segundo colocado no campeonato mundial, já não é mais tempo das escolas continuarem com este preconceito. Esperamos que você consiga reverter este jogo.
Angela

rebeca disse,
11-3-2007 - 21:24:30 - 189.11.110.67    

tenho 14 anos, e uma coisa q acho o cumulo,
é que garotos da minha idade podem ficar
com todo mundo, mas se uma menina namora,
todo mundo fala mal… isso tem q mudar…
não e justo nada disso!!! homens não NADA melhor q nós…

rebeca

sonia cristina de lima ferreira disse,
2-23-2008 - 11:33:10 - 200.211.148.9    

acho que o feminismo no brasil abarcou nos paertidos politicos nada contra quem suas ideologias mais dai,fazer bandeiras de lutas acho que nesta fase contemporanea precisamos e garantir direitos já conquistados e democratizar sim as mulheres que parece que houve um retrocesso .

Rízio José de Andrade - Veterinário disse,
3-4-2008 - 10:37:06 - 201.40.52.136    

Beleza Inatingível
As mulheres são demasiadamente exigentes com seu próprio corpo, e das outras. Os homens, em geral, vão na “esteira” de uma padronização rigorosa concebida pelas mulheres. Uma beleza mais natural tem menor custo e se torna menos danosa. Inconformismos com o natural podem gerar artificialidades pernósticas, ou matar.

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